Eu até usaria um pseudônimo qualquer. Eu poderia escrever um vocativo aleatório, mas nada esconderia o verdadeiro destinatário de minha carta. Portanto,
Querido você,
ouvi dizer, pelas esquinas de meu bairro, que nunca é tarde demais para recomeçar. Outros me disseram que “nunca” é uma palavra muito forte. É uma daquelas palavras que generalizam, e certas coisas não podem ser generalizadas. É, sim, tarde demais. É tarde demais para voltar atrás. É tarde demais para dizer “eu sinto muito”. Nada, no mundo, será capaz de mostrar-lhe o quanto eu sentirei sua falta.
Dizer “adeus” não é fácil. Dói, machuca, parte o coração em pequenos pedaços. E é por isso que te escrevo agora. Para te mostrar o quão difícil é desistir, o quanto me custa seguir em frente, o quanto eu gostaria de ainda ter você, de ainda poder cuidar de você. Disseram, também, que o tempo cura, mas eu resolvi parar de acreditar no que dizem há alguns dias. Não vale a pena ouvi-los.
Eu não quero ser aquela menina que fugiu quando você mais precisava. Eu não quero que você se pergunte aonde eu estava, quando tudo estava desmoronando. Lembro-me de dizer “quando você sentir o mundo caindo ao redor dos seus pés, venha correndo para os meus braços”. E agora, para onde você irá? Como eu poderei saber se você vai ficar bem, se nem ao menos nos falaremos mais? Eu queria ser a única a enxugar seus olhos e te fazer sorrir.
Tudo o me disseram é mentira, não é? É tarde demais, sim. É tarde demais para querer ser o que não fui. E peço-lhe desculpas por isso. A verdade é que eu não posso, agora, lidar com tudo isso. Então, desmoronaremos juntos. Porém, eu aqui, você aí. O céu que nos cobre sempre será o mesmo. Lembre-se de mim nas noites estreladas. E, também, nas noites nubladas, chuvosas, frias, ou quentes. Eu não te esquecerei, por mais que essa seja sua vontade. Ou, pelo menos, é o que você diz que quer. E sei que você não me esquecerá, apesar de ser o melhor para nós dois.
Feche seus olhos, menino. Você ficará bem. Eu pedirei à minha estrela que ela cuide de você. E espero, de coração, que ela me ouça.
Adeus, por agora e, talvez, para sempre,
a menina que ama o céu, mas que não suportou o peso dele sobre si.
" - Raíssa César. (via breve-notas)